O maestro apontou para o trompetista com a batuta. Seria dele o próximo e último solo. Diante da plateia do Theatro José de Alencar, o músico se levantou da cadeira, respirou, profundamente... e desafinou. Seria um bemol... O maestro fez a batuta tremer. Desafio. Os outros músicos ficaram tensos. O trompetista inverteu o olhar para dentro de si. Tonto e ridicularizado, o músico reagiu ao maestro. Baixou o trompete, meteu a mão no colete e arrastou - sic - uma navalha. Os músicos se voltaram e se entreolharam, atônitos. A plateia atenta. O trompetista se espelhou no brilho do metal. O rosto disfome. As rugas aprofundadas. Ele desafinou a jugular. Logo, o sangue em sustenido ensopou o colarinho. Isso aconteceu num lapso de instante. Assim mesmo, o músico se desculpou da plateia silenciosa, posicionou-se, ergueu o trompete e executou um solo alheio à partitura. Os outros músicos se ergueram de seus lugares. O maestro fez gesto de grito, mas nada conseguiu com a batuta no ar. Ao fim do improviso, os outros músicos apararam o trompetista. A multidão do Theatro José de Alencar delirou, aquele espetáculo não poderia ser uma farsa... e, de pé, aplaudiu freneticamente. Nesse instante, o maestro atento aos aplausos virou-se para o público e curvou-se.
Então, resolvi baixar as cortinas. Mas, do outro lado, o povo continou aplaudindo, pedindo bis bis bis